Guest-Post – Comunidade – Opinião por Limited Edition

Conheci a Joana no Blogger’s Camp este ano e gostei muito de conversar com ela. Escreve muito bem, sobre temas variados, incluindo receitas magníficas. É um blog de Edição Limitada e perfeito na quantidade de ingredientes, incluindo pimenta… Sim, porque as suas publicações têm uma pitada de um Je ne sais quois que nos faz rir e, acima de tudo, pensar.

Para além disso, a Joana é como eu… Adora gatos e são tão fofos! Podem espreitá-los no Instagram. Para além disso, não se esqueçam de seguir o Limited Edition através do Blogue e do  Facebook.

Hoje vamos ter a opinião da Joana sobre um livro que fiquei cheia de curiosidade de ler também!

—————————————————————————————————————————————-Seria mentira se vos dissesse que sou daquelas leitoras que chega ao verão e começa a devorar páginas. Já fui. Actualmente gosto de iniciar o ano com um novo desafio no Goodreads, de preferência inatingível. Organizo mentalmente os livros que pretendo ler, mantenho-me atenta às novidades e ao caminho em que cada nova leitura me dirige.

Sou cada vez mais criteriosa nos livros que escolho. Não sei se será da idade, mas sinto que o meu tempo é precioso e não quero desperdiçá-lo em livros que vêm embrulhados em tule ou em autores que não me interessam. Acho que os policiais fazem já parte do meu passado e noto que muitos clássicos ainda me escapam. Misturo as grandes obras com etnografias e passo o ano inteiro a ler. Comprometo-me a pelo menos 20 páginas por dia, sejam elas de que espécie forem. Mentalizei-me que consigo ler mais do que naturalmente estaria inclinada a fazer se seguir algumas estratégias: andar sempre que possível com um livro na mala, trocar a luz incandescente do telemóvel e a atracção das redes sociais por uma narrativa bem construída e abandonar os livros que teimam em não me agradar passadas algumas páginas (para mais dicas espreitem aqui como podem ler 200 obras num ano). Gosto de misturar ficção com investigação e sempre que posso mergulho no realismo mágico (por falar nisso, já viram que Isabel Allende acabou de publicar mais uma obra?!). Sempre que alguém me fala do que anda a ler procuro perceber se também é indicado para mim. E se apanho alguém a desfrutar de uma obra ao estilo Rebelo Pinto, esquivo-me rapidamente da conversa. E da pessoa. Penso que a leitura é profundamente terapêutica, fonte de aprendizagem e de consolo. Não devemos perder tempo com o que nada nos acrescenta.

Já o meu marido é o oposto. Completamente desorganizado nas suas leituras, este ano decidiu que queria ler pelo Kobo na praia (apesar de eu estar a usá-lo para terminar um livro), depois mudou de ideias e começou a reler uma obra que trouxera consigo de férias e por último decidiu fazer uma visita à FNAC para se abastecer de livros nos quais, logicamente, nem pegou. Às vezes questiono-me porque ainda estamos casados.

Capa_ComunidadeUm dos que trouxemos nesse dia foi o Comunidade de Ann Patchett. Desconhecia completamente a autora e apenas o retirei da estante porque me interessou a sinopse, uma vez que reunia uma série de elementos que não me são estranhos: famílias fragmentadas e reconstruídas, relações entre meios-irmãos mais fortes que o sangue e o dilema sobre até que ponto as nossas histórias nos pertencem realmente.

O livro começa com uma festa de baptizado povoada de polícias e advogados, regada a gin e que termina com um beijo ilícito. Segue-se um romance que conduz à Virgínia uma família recém formada com os despojos das anteriores, enquanto que os restantes sobrevivem na Califórnia. Mães-madrastas, pais ausentes, pais extremosos construídos à distância, o peso da responsabilidade sobre quem nada decide e que acaba a criar-se sozinho através de decisões irreflectidas, alianças que ultrapassam as relações sanguíneas e uma visão desmistificada dos erros dos adultos. O livro assenta sobre a perda e a reconstrução, seja pelos momentos vividos ou pelas diferentes maneiras como a realidade é interpretada. Porque cada história tem várias leituras, Patchett explora como cada um dos intervenientes lida com os danos: uns culpabilizando terceiros, outros isolando-se e procurando conforto no não julgamento, outros apagando-se na sombra de grandes vultos e, claro, o eventual refúgio nas drogas e no álcool.

O interesse que o livro me despertou levou-me a querer conhecer um pouco mais sobre a autora.

Comunidade é a obra mais recente de Ann Patchett, tendo sido editada em 2016, após vários anos a escrever para revistas e publicando obras de ficção e de não ficção. Pelo caminho Patchett abriu uma livraria independente onde se dedica a promover um mundo onde os escritores possam viver fora do seu casulo e de onde espanta e ameaça os clientes que aí procuram recomendações para depois se abastecerem nas estantes virtuais da Amazon.

Este livro obrigou Patchett a enfrentar o seu passado e, mais concretamente, a sua família. A contar a história do divórcio dos pais, da sua relação com os meios irmãos e a tomar o papel de   narradora da intriga familiar, criando assim um registo perene dos factos. Seguindo o conselho de Jonathan Franzen (outro dos meus autores favoritos), Patchett escreveu sobre o que mais temia e com isso foi capaz de imprimir sobre o destino de quem lhe é próximo uma realidade mais feliz do que os factos, seguindo assim o mote que decora as paredes do seu escritório: “What good shall I do this day?”.

Eu acredito que qualquer história é, no fundo, sobre nós. Uma tentativa de ordenar e ganhar algum tipo de controlo sobre o que se abate sobre o dia a dia. De como os hábitos se tornam rotinas, de como o inesperado irrompe os nossos projectos (inclusivamente os de leitura) e de como reconstruímos o nosso sentido do mundo a partir das peças que temos ao nosso dispor. Por isso fiquei tão satisfeita que, apesar dos meus melhores planos, numa tarde de verão o livro de Ann Patchett se tenha cruzado comigo e que no meio de tantos outros tenha sido precisamente este que decidi virar e consultar com mais cuidado. Por esta altura Comunidade já faz parte da minha história, tal como consigo encontrar nas relações das famílias Keating e Cousins tanto de mim como dos meus (meios) irmãos também.

Para quem acredita em coincidências, esta foi uma das felizes.

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