Nos últimos meses, temos andado desaparecidos. Ao normal cansaço do fim de ano, trabalho mais complicado e várias provas, exames e as várias festas e espetáculos de final de ano, juntou-se a súbita doença do meu marido.

Durante umas longas semanas e, contrariamente ao normal, esteve de cama em repouso e depois em descanso forçado diário, pós trabalho, de modo a recuperar o mais possível da infeção renal súbita que teve.

No meio desta questão e, na sequência de uma ecografia para verificar como estavam os seus rins, apareceram dois nódulos no abdómen, que geraram o pânico.

O amor da minha vida sofreu um grave acidente de mota quando era pouco mais velho do que o nosso filho mais velho, quando um senhor decidiu ultrapassar numa curva e levar quem vinha à frente. Após nove dias de cama e missa preparada, pois poucos acreditavam que sobrevivesse, ele acordou bem disposto, com cicatrizes que vão dos pés à cabeça, vários ossos partidos e sem o baço. Já lá vão 25 anos!

Durante o tempo entre a ecografia, em 2018, e a TAC, muitos foram os cenários que se afiguravam na nossa cabeça e o medo surgia a cada dia que colocava a cabeça na almofada. Na verdade, durante o dia, não tinha tempo para pensar em quase nada, só sobreviver. À noite, não tinha  capacidade de escrever, de me concentrar, de nada. Só queria dormir e nem isso conseguia.

Sentia que o chão me fugia. O meu chão, a minha fortaleza, estava doente e, desta vez, podia ser mais sério do que nunca. Foi um período de discernimento, tentando não assustar os filhos mas explicando que o pai tinha que descansar e não conseguia cooperar como antes.

Não pude acompanhá-lo pois entre os filhos e o trabalho, não consegui simplesmente. No dia da TAC, lá foi… E eu fiquei com o coração nas mãos. Foi complicado mas ele conseguiu fazer o exame e ainda voltar para a escola… Fim de ano letivo é muito complicado!

Saiu-lhe a sorte grande… Os nódulos não tiveram nada a ver com a infeçcão. O mais estranho é que, passado 25 anos, ele tem mini-baços… E essas mini versões de órgãos, que tanto pavor nos causaram, são agora a causa de risinhos envergonhados, cobertos de grande alívio, sabendo sempre que, um dia, o chão me podia fugir.

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Posted by:Silvia Reis

Former Higher Education Teacher, now working as a freelance translator and a full time mom...

4 replies on “E, se um dia, o chão parecer fugir

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